O sujeito que sabe demais

Roberto Gomes, escritor
 
O esporte favorito do ser humano é passar rasteira no próximo. Trata-se de velha prática com a qual a humanidade se diverte há séculos. Há variações neste jogo, mudando apenas o grau de crueldade, de sadismo ou de graça com que é praticado.
 
Uma das formas menos cruentas, mas não menos dolorosa, é a praticada pelo sujeito bem informado. Aquele que sabe de tudo e dispõe de informações secretas. Tipo expansivo, falastrão, de sorrisos malandros. Não raro cutuca nossas costelas com o cotovelo para pontuar as maldades que anuncia.
 
Digamos que estamos no calçadão da Boca Maldita batendo um papo sem compromisso e comentamos que, nestes tempos bicudos, ao menos a felicidade daquele conhecido casal cuja foto ilustra o jornal da banca da esquina está em alta. O sujeito que sabe de tudo nos olha com piedade e sorriso complacente:
 
- Não é bem assim. Ficam juntos por conveniência.
 
E nos explica as farsas e tramoias financeiras que mantêm o falso casamento de pé. Pronto. Lá se foi mais uma de nossas ilusões. Ninguém sabia. Só ele.
 
Se a questão é política, fazemos um esforço enorme – somos ingênuos, lembra? – para citar ao menos o nome de um deputado ou senador honesto. Depois de longo esforço, citamos um que ainda nos permite acreditar na espécie humana, da qual imaginamos que os políticos façam parte. Ele ataca:
 
- Que nada...
 
E nos explica que o tal político é ligado a grupos financeiros. Seus projetos beneficiam suas próprias empresas, todas em nome de laranjas. E arremata:
 
- Fortuna feita à base de falcatruas.
 
- Com aquela cara de santo?
 
- De santo? Cara de pau, isto sim.
 
Pronto, nem o deputado santinho se salva neste mundo cruel.
 
Mas insistimos. Lá pelas tantas, damos uma explicação para o sucesso de certo personagem. Claro, nos baseamos em coisas lidas na mídia, onde saltitam elogios a seu caráter empreendedor.
 
Ele coloca mão piedosa em nosso ombro:
 
- Você não sabia?
 
Pronto. Xeque-mate. Só ele sabe. E continua:
 
- Essas notas na mídia são pagas por ele. Um craque na autopromoção.
 
- Jura?
 
- Você não sabia?!
 
Inútil responder: é claro que não sabia. Só ele sabe.
 
- Deixa eu te contar uma coisa – diz ele, enquanto nos obriga a dar alguns passos pelo calçadão, como se nos conduzisse a um cadafalso e acomodasse nossa cabeça na direção da lâmina da guilhotina - há até uma tabela para estas notas. Com foto, sem foto, com cinco ou dez linhas, com elogios rasgados ou proezas jamais realizadas por ele.
 
- Não me diga!
 
- Digo. E digo mais. Quem faz aqueles projetos e escreve aqueles artigos é uma equipe paga por ele. Ele é praticamente analfabeto.
 
- Como é que você sabe disso?
 
Ele nos envolve num abraço sufocante:
 
- Ah, meu caro, como você é ingênuo!
 
E nos aniquila com a sutileza de um tiro de bazuca:
 
- Já não existe gente ingênua como você nesse mundo.
 
Dito isso, anuncia ter um encontro secreto com algum figurão e sai calçada afora, surfando o petit-pavé sem tropicar, cuidadoso e bailarino, distribuindo cumprimentos educados para todos os lados.
 
 
Publicado na edição 210 - junho/2017

Dress code informal: pode tudo?

Karla Giacomet, consultora de imagem
 
A flexibilização no “dress code” já é uma tendência nas empresas do Brasil. 
 
A mudança, que começou pelas startups e empresas de tecnologia há alguns anos, vem inspirando até mesmo setores tradicionais a revisar seus códigos de vestimentas, que já incorporaram pelo menos a sexta-feira casual, ou o já conhecido casual day. 
 
A flexibilização desses códigos é parte de um processo de mudança mais profunda que as corporações estão enfrentando com a chegada de novas gerações, com novos estilos de liderança e, até mesmo, uma relação menos formal com os clientes. 
 
Quando as empresas me procuram para dar palestras, esse tem sido um tema recorrente, diante da dificuldade de gestores e colaboradores em lidar com o assunto.
 
Sempre digo que o informal é muito mais difícil que o formal. No formal existem regras, que normalmente estão bem definidas e, portanto, minimizam o risco de erros. Já no informal, impera a liberdade de escolha do colaborador. 
 
O interessante que a queixa não é só da empresa, mas também dos funcionários, que muitas vezes se dizem confusos e sem saber o que usar. 
 
Uma boa solução para esse impasse, é investir em palestras sobre o tema ou desenvolver uma cartilha de código de vestimenta ajustado ao nível de formalidade desejado, que depende muito do segmento de atuação de cada empresa.
 
Mas, enquanto as empresas não definem “as regras do jogo”, é bom ter em mente que informal não quer dizer que pode tudo, mas sim, que não existe formalidade. 
 
Algumas considerações a respeito:
 
• Casual day é apenas um dia da semana em que o colaborador pode baixar um nível da formalidade. Ou seja, se no dia a dia você trabalha de terno e gravata, no casual day, não dá para usar calça jeans e camiseta, mas talvez uma calça de sarja e uma camisa.
 
• Se o ambiente permite usar jeans, prefira os mais escuros e sem lavagens, ou rasgos. 
 
• Informalidade no trabalho pede atenção redobrada com a qualidade das peças.
 
• Aqueles velhos conhecidos (que já falei aqui na coluna) não são bem-vindos, mesmo em ambientes informais: roupas muito curtas, justas ou decotadas, cores muito vibrantes, camisetas de times, regatas, bermudas.
 
• Pois por mais informal que seja o seu ambiente profissional, não existe brecha para falta de atenção com cuidados pessoais (barba, cabelo, odores, pele e unhas). O nome disso é desleixo e não informalidade.
 
Lembre-se: sua aparência precisa refletir o profissional que você é!
 
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Publicado na edição 210 - junho/2017

Acredita em benzimentos?

Roberto Gomes, escritor, colunista do AJ
 
Eu tinha 12 anos. Certo dia minha mãe viu verrugas em meus dedos e pés. Ficou horrorizada. Havia uma crença de que verrugas, se esfoladas, poderiam evoluir para uma doença gravíssima, aquela, cujo nome jamais era pronunciado. 
 
Dias após, a chamado de minha mãe, chegou lá em casa a Maria Palmeira.
 
Era uma mestiça de bugres e negros, pequenina, talvez um metro e cinquenta, cabelos enrolados e troncuda feito um barril.
 
A razão de sua notoriedade estava no sobrenome que recebeu, já que seu nome de origem, se teve algum, não era conhecido. Maria Palmeira era assim chamada por ser torcedora fanática do time de futebol local. Segundo a lenda, numa Blumenau dividida, era o time dos brasileiros, ou seja, negros, crioulos e, no caso de Maria, índios. Os adversários eram torcedores do Olímpico, os alemães. Meias verdades, como tudo no mundo do futebol.
 
O seu sustento saía das verduras e frutas que cultivava e que oferecia numa carroça oscilante puxada por um cavalinho petiço e triste. Tinha enorme freguesia, pela qualidade dos alimentos e pela simpatia.
 
Pois Maria Palmeira ia a todos os jogos do Palmeiras e ficava – naqueles tempos sem alambrado e policiamento – na linha do campo, aos berros, incentivando os jogadores, xingando os adversários e dizendo coisas terríveis a respeito da mãe do juiz. Com um detalhe: ia sempre munida de um guarda-chuva, houvesse sol ou chuva. Aliás, não abria o guarda-chuva jamais. Não era um abrigo, era uma arma que agitava com fúria.
 
Foi numa dessas que ela invadiu o campo e deu várias guarda-chuvadas na cabeça do juiz, que, segundo ela, marcara pênalti inexistente. A partir desse dia foi proibida de entrar no estádio com guarda chuva, houvesse sol ou chuva.
 
Pois Maria Palmeira chegou lá em casa quando já anoitecia. No céu, uma lua cheia de luz. Ela fez com que eu sentasse num degrau da escada dos fundos, de onde a lua parecia ainda mais brilhante, e retirou do bolso um pedaço de carne.
 
- Cadê birruga? – perguntou.
 
Mostrei minhas mãos e meus pés.
 
Ela ordenou:
 
- Quieto.
 
Fiquei quieto. Ela começou uma reza sussurrada e cantante enquanto fazia cruzes com a carne sobre cada uma das verrugas. Ela olhava a lua e rezava como se estivesse em transe. Comecei a provocar:
 
- Cuidado, Maria.
 
- Que foi, guri?
 
- Com tanto benzimento, vai cair o meu dedo!
 
- Te cala, excomungado!
 
Continuei provocando:
 
- Ih, meu pé está dormente. Vai cair!
 
- Ô desinfeliz, cala a boca!
 
E assim prosseguimos. Ela rezando, eu debochando. Ela de olho na lua e eu dando risadas. Terminado o ritual, Maria colocou o pedaço de carne no bolso e sumiu num passo curto e ligeirinho. Perguntei o que faria com a carne, mas ela não respondeu. Minha mãe me contou: ela iria colocar a carne num formigueiro. E deu uma semana de prazo para as verrugas.
 
Cinco dias depois, minha mãe olhou para minha mão e se assustou:
 
- Cadê as verrugas?!
 
Haviam sumido. Todas. Sem deixar sinal.
 
Ainda não sei se acredito nos poderes das rezas de Maria Palmeira, mas nunca mais duvidei de benzedeiras.
 
 
Publicado na edição 209 - maio/2017

Comunicação agressiva

Karla Giacomet, consultora de imagem, colunista do AJ
 
Pode até ser que você não tenha ouvido falar no termo Comunicação Agressiva, mas certamente já ouviu algum colega ou amigo vangloriar-se de dizer sempre o “o que tem que ser dito”, em nome do que chamam de sinceridade absoluta ou autenticidade.
 
Ao primeiro momento, podemos pensar que comunicação agressiva é somente aquela que se manifesta por um tom de voz alterado, gestos grosseiros e até palavras de baixo calão. Essa é a forma mais explícita, mas ela pode se manifestar de forma bem mais sutil e mascarada, o que pode tornar difícil a identificação de um problema que pode ser desastroso para as relações pessoais.
 
Você já percebeu que algumas pessoas conversam apontando o dedo? Até mesmo em diálogos triviais. 
 
Apontar o dedo a uma pessoa é um exemplo clássico de manifestação agressiva. É uma ação que denota a necessidade de impor a própria opinião. 
 
Outros exemplos? 
 
Falar com ironia, com sarcasmo, levantar as sobrancelhas ao ouvir algo que não está de acordo, fazer brincadeiras com assuntos sérios para “mandar um recado”. Isso tudo é agressivo.
 
Pessoas que impõem suas vontades, que gostam das coisas do seu jeito, que se consideram super sinceras, tendem a ser comunicadores agressivos. 
 
Muitas dessas pessoas são assim porque sentem a necessidade de se impor a qualquer custo, mas também como forma de defesa, para esconder alguma fragilidade. Outras, no entanto, não tem consciência. São acostumadas a se comunicar de forma agressiva porque aprenderam a ser assim e acabam magoando e afastando as pessoas sem perceber. Afinal, ninguém gosta de ser sentir inferiorizado, desrespeitado.
 
Se você se identificou com essas características e está se perguntando se pode estar caindo nessa armadilha, comece a observar como você age nos momentos de tensão, pressão e até mesmo nos momentos de descontração total. Peça o feedback de algumas pessoas próximas de círculos diferentes.  
 
Em nosso convívio profissional e pessoal, precisamos pensar (muito) antes de falar. Precisamos, sim, de “filtros” e evitar sermos desagradáveis com as pessoas, principalmente no ambiente de trabalho, onde além da boa convivência, seu emprego ou sua reputação podem estar em jogo. 
 
Alguns comentários só devemos fazer com pessoas que temos muita intimidade, e ainda assim podem ser desagradáveis! 
 
Pense nisso!
 
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Publicado na edição 209 - maio/2017

Imagem pessoal: aparência é tudo?

Karla Giacomet, consultora de imagem, colunista do AJ
 
Desde a última coluna, fui marcada em uma postagem de um workshop que fiz falando sobre postura profissional. Uma amiga comentou não ter entendido o que aquele assunto tinha a ver com o meu trabalho, já que eu sou consultora de imagem.
 
Assim como a minha amiga, muitas pessoas acreditam que quando falamos de imagem, estamos falando só da aparência, quando na verdade, existem mais dois elementos chave: comunicação e comportamento.
 
Tudo começa na aparência porque a maneira como nos vestimos é a primeira coisa percebida pelo outro. Em frações, a partir de sensações, uma primeira impressão já se forma. Essa impressão pode ser positiva ou negativa.
Quando se inicia uma interação, entram em jogo os outros elementos, que dizem respeito à forma como nos comunicamos e tratamos o outro. 
 
A forma como nos comunicamos diz muito sobre quem somos. Assim, somos percebidos pela forma como falamos, sobre o que falamos, nosso tom de voz, se escolhemos o vocabulário adequado. 
 
Também comunicamos sem abrir a boca, e como já falei aqui nesse espaço, é bem mais fácil controlar o que falamos, do que nossas expressões faciais, nossos gestos. 
 
Por último, mas não menos importante, o terceiro elemento chave é o nosso comportamento, que diz respeito aos nossos gestos, a como tratamos as pessoas, a quanto valor damos ao tempo delas. Tem a ver com gentileza, discrição e empatia. 
 
Desde o momento que abrimos o nosso armário pela manhã, ao “bom dia” que damos (ou não) ao nosso porteiro, e até mesmo aquela careta diante de uma situação inesperada: estamos comunicando! O todo tempo estamos transmitindo mensagens. 
 
E acreditem: não existe roupa neutra, comportamento neutro ou um rosto que não expresse emoções. Então, quando eu escolho gerenciar a minha imagem, eu passo a ter uma ferramenta estratégica ao meu favor. Não se trata de usar imagem de forma manipulativa, mas sim de, conscientemente, tornar visíveis minhas qualidades e o meu jeito especial de fazer algo. 
 
Você já parou para pensar em quais são seus maiores trunfos? Pelo que você quer ser lembrado? Será que sua imagem está alinhada com a marca que você quer deixar? Comece agora mesmo a fazer a gestão da sua imagem e deixe sua marca pessoal por onde passar.
 
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Publicado na edição 208 - abril/2017