Estranho amor pelo desconto

Roberto Gomes, escritor
 
A cada dia temos novos motivos para levar sustos e tropeçar no inaudito. Aliás, sempre pensei que o inaudito fosse a designação de um tipo de arapuca que surge no meio do caminho, havendo ou não pedra no meio do caminho.
Somos atropelados pelo inaudito.
 
Dia destes recebi uma mensagem inaudita enviada por uma livraria virtual. Como sou tarado por livros, não reclamo destas invasões. Que não interferem nas minhas compras, embora a chuva de e-mails seja diária e furiosa.
Sinto-me uma caça. Sabem meu nome, meu endereço, falam diretamente comigo como se eu fosse o único destinatário de suas mensagens.
 
Mas o inaudito não é este. É outro. E ele me leva a pensar no mundinho distorcido e desolador em que vivemos. Dizia o e-mail: “Tem como não amar títulos com até 80% de desconto?”.
 
É verdade que o desconto é tentador, restando saber se é real ou maquiado. 
 
Mas também não foi isso que me levou ao inaudito.
 
O problema está na lógica da frase, que conduziu seu redator ao delírio narcísico. Diz ele, o redator – ou ela, a frase – “como não amar títulos” e oferece a razão: “com até 80% de desconto”.
 
A palavra amor já foi usada para muitas barbaridades. Para justificar atitudes possessivas, agressões, assassinatos. Para aflorar na boca de atores e atrizes que dizem fazer tudo “com muito amor”. Se forem cozinheiros, cozinham com amor, o tempero principal de seus pratos. Há também o amor pelo time de futebol, animais, natureza, trabalho, pátria e seleção. Muito amor, como se vê.
 
Pasmo, me perguntei: amar pelos descontos? Quer dizer que um leitor abre um e-mail com ofertas de livros e, vendo descontos avantajados, cai de amores pelos títulos oferecidos?
 
Estamos num mundinho muito estranho. Que se ame a mulher amada pelos seus olhos ou pelo conjunto da obra, entendo. Que se ame seu país porque ali se nasceu, cresceu e aprendeu o básico da vida, tudo bem.
 
Mas amar descontos? Amar títulos pelos descontos?
 
Eis o que eu queria dizer: é o inaudito.
 
O ser humano sempre foi bicho desconcertante.
 
A primeira revolução humana começou com o domínio do fogo. Embora resultado da engenhosidade humana, ele foi entronizado como novo deus. O homem ajoelhou-se diante dele. Esqueceu que ele próprio inventara como dominá-lo.
 
A invenção revolucionária atual é a avalanche ansiosa do hiperconsumo. É preciso se empanturrar de coisas, roupas, carros, bijuterias, eletrodomésticos, bugigangas.
 
O celular é o melhor símbolo dessa alienação. Se uma catástrofe exterminar com os celulares, teremos o maior surto de desespero na face da terra. Entregues a si mesmos, os humanos já não tolerarão o vizinho e não se olharão no espelho. O confronto final será inevitável.
 
Eis o inaudito: quem seria capaz de amar descontos? Que ideia é essa de amor? Que ideia de livros? Que ideia de cultura? Que ideia de si mesmo? Que criatura comprará um livro por conta do apelo erótico de um desconto?
Estou exagerando?
 
Acho que não. Quem exagerou foi o redator dessa triste e involuntária síntese perfeita do mundo em que vivemos.
 
 
Publicado na edição 211 - julho/2017

Postura profissional em tempos de igualdade de gênero

Karla Giacomet, consultora de imagem
 
Comecei a pensar na relevância do tema da coluna desse mês na semana passada em um treinamento que eu estava ministrando. Era um treinamento corporativo sobre Postura Profissional Contemporânea.
 
Falávamos sobre cumprimentos. No momento que eu comentei que não importa quem inicia o aperto de mão, que o homem não precisa mais aguardar a iniciativa da mulher, um dos participantes me questionou e iniciou-se uma pequena polêmica. Particularmente, gosto desses momentos, eles nos incentivam a pensar em porque fazemos o que fazemos...
 
Expliquei que não importa quem inicia o aperto de mão, assim como o homem não precisa mais abrir a porta do elevador para sua colega, ou puxar a cadeira para ela sentar. Vivemos um importante momento que busca a igualdade de gênero, condições igualitárias na esfera profissional, e qualquer atitude (mesmo que não intencional) que vá de encontro com essa causa, pode provocar desconforto entre as partes.
 
Há alguns dias depois me deparei com uma entrevista da Gloria Kalil sobre a nova etiqueta profissional. Apesar de não concordar com tudo que li, gostei muito de quando ela fala sobre esse tema. “Havia atitudes chiques numa época mais machista que já não têm mais sentido.... eu gosto que me ajudem a carregar um pacote pesado, por exemplo. Não custa nada, desde que seja uma gentileza de verdade, e não uma expectativa ditada pelo gênero...”, disse ela.
 
Não estou aqui desestimulando comportamentos gentis- de forma alguma, por favor! Eu gosto muito de gentilezas, acho que elas são inspiradoras – quando genuínas. Eu gosto de abrir a porta do elevador para as pessoas: abro para homens mais velhos, mais novos e para outras mulheres. Se você também gosta, pense que esse comportamento delicado pode acontecer independente de regras de gênero e de idade.
 
Importante ressaltar que as questões relacionadas a igualdade de gêneros não é apenas uma “luta de mulheres”. Uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU) mostra que 75% dos brasileiros consideram de grande ou extrema importância que gestores e legisladores desenvolvem políticas de promoção da igualdade entre mulheres e homens. Ou seja, muitos homens e várias empresas já aderiram – inclusive a empresa multinacional que me contratou para falar sobre o tema.
 
São novos tempos.
 
Ao não acompanharmos as mudanças de comportamento da sociedade, corremos o risco de, aos poucos, nos tornarmos profissionais ultrapassados, fora do nosso tempo, por mais atualizado que esteja nosso currículo.
E você, como quer ser visto?
 
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Publicado na edição 211 - julho/2017

Dress code informal: pode tudo?

Karla Giacomet, consultora de imagem
 
A flexibilização no “dress code” já é uma tendência nas empresas do Brasil. 
 
A mudança, que começou pelas startups e empresas de tecnologia há alguns anos, vem inspirando até mesmo setores tradicionais a revisar seus códigos de vestimentas, que já incorporaram pelo menos a sexta-feira casual, ou o já conhecido casual day. 
 
A flexibilização desses códigos é parte de um processo de mudança mais profunda que as corporações estão enfrentando com a chegada de novas gerações, com novos estilos de liderança e, até mesmo, uma relação menos formal com os clientes. 
 
Quando as empresas me procuram para dar palestras, esse tem sido um tema recorrente, diante da dificuldade de gestores e colaboradores em lidar com o assunto.
 
Sempre digo que o informal é muito mais difícil que o formal. No formal existem regras, que normalmente estão bem definidas e, portanto, minimizam o risco de erros. Já no informal, impera a liberdade de escolha do colaborador. 
 
O interessante que a queixa não é só da empresa, mas também dos funcionários, que muitas vezes se dizem confusos e sem saber o que usar. 
 
Uma boa solução para esse impasse, é investir em palestras sobre o tema ou desenvolver uma cartilha de código de vestimenta ajustado ao nível de formalidade desejado, que depende muito do segmento de atuação de cada empresa.
 
Mas, enquanto as empresas não definem “as regras do jogo”, é bom ter em mente que informal não quer dizer que pode tudo, mas sim, que não existe formalidade. 
 
Algumas considerações a respeito:
 
• Casual day é apenas um dia da semana em que o colaborador pode baixar um nível da formalidade. Ou seja, se no dia a dia você trabalha de terno e gravata, no casual day, não dá para usar calça jeans e camiseta, mas talvez uma calça de sarja e uma camisa.
 
• Se o ambiente permite usar jeans, prefira os mais escuros e sem lavagens, ou rasgos. 
 
• Informalidade no trabalho pede atenção redobrada com a qualidade das peças.
 
• Aqueles velhos conhecidos (que já falei aqui na coluna) não são bem-vindos, mesmo em ambientes informais: roupas muito curtas, justas ou decotadas, cores muito vibrantes, camisetas de times, regatas, bermudas.
 
• Pois por mais informal que seja o seu ambiente profissional, não existe brecha para falta de atenção com cuidados pessoais (barba, cabelo, odores, pele e unhas). O nome disso é desleixo e não informalidade.
 
Lembre-se: sua aparência precisa refletir o profissional que você é!
 
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Publicado na edição 210 - junho/2017

O sujeito que sabe demais

Roberto Gomes, escritor
 
O esporte favorito do ser humano é passar rasteira no próximo. Trata-se de velha prática com a qual a humanidade se diverte há séculos. Há variações neste jogo, mudando apenas o grau de crueldade, de sadismo ou de graça com que é praticado.
 
Uma das formas menos cruentas, mas não menos dolorosa, é a praticada pelo sujeito bem informado. Aquele que sabe de tudo e dispõe de informações secretas. Tipo expansivo, falastrão, de sorrisos malandros. Não raro cutuca nossas costelas com o cotovelo para pontuar as maldades que anuncia.
 
Digamos que estamos no calçadão da Boca Maldita batendo um papo sem compromisso e comentamos que, nestes tempos bicudos, ao menos a felicidade daquele conhecido casal cuja foto ilustra o jornal da banca da esquina está em alta. O sujeito que sabe de tudo nos olha com piedade e sorriso complacente:
 
- Não é bem assim. Ficam juntos por conveniência.
 
E nos explica as farsas e tramoias financeiras que mantêm o falso casamento de pé. Pronto. Lá se foi mais uma de nossas ilusões. Ninguém sabia. Só ele.
 
Se a questão é política, fazemos um esforço enorme – somos ingênuos, lembra? – para citar ao menos o nome de um deputado ou senador honesto. Depois de longo esforço, citamos um que ainda nos permite acreditar na espécie humana, da qual imaginamos que os políticos façam parte. Ele ataca:
 
- Que nada...
 
E nos explica que o tal político é ligado a grupos financeiros. Seus projetos beneficiam suas próprias empresas, todas em nome de laranjas. E arremata:
 
- Fortuna feita à base de falcatruas.
 
- Com aquela cara de santo?
 
- De santo? Cara de pau, isto sim.
 
Pronto, nem o deputado santinho se salva neste mundo cruel.
 
Mas insistimos. Lá pelas tantas, damos uma explicação para o sucesso de certo personagem. Claro, nos baseamos em coisas lidas na mídia, onde saltitam elogios a seu caráter empreendedor.
 
Ele coloca mão piedosa em nosso ombro:
 
- Você não sabia?
 
Pronto. Xeque-mate. Só ele sabe. E continua:
 
- Essas notas na mídia são pagas por ele. Um craque na autopromoção.
 
- Jura?
 
- Você não sabia?!
 
Inútil responder: é claro que não sabia. Só ele sabe.
 
- Deixa eu te contar uma coisa – diz ele, enquanto nos obriga a dar alguns passos pelo calçadão, como se nos conduzisse a um cadafalso e acomodasse nossa cabeça na direção da lâmina da guilhotina - há até uma tabela para estas notas. Com foto, sem foto, com cinco ou dez linhas, com elogios rasgados ou proezas jamais realizadas por ele.
 
- Não me diga!
 
- Digo. E digo mais. Quem faz aqueles projetos e escreve aqueles artigos é uma equipe paga por ele. Ele é praticamente analfabeto.
 
- Como é que você sabe disso?
 
Ele nos envolve num abraço sufocante:
 
- Ah, meu caro, como você é ingênuo!
 
E nos aniquila com a sutileza de um tiro de bazuca:
 
- Já não existe gente ingênua como você nesse mundo.
 
Dito isso, anuncia ter um encontro secreto com algum figurão e sai calçada afora, surfando o petit-pavé sem tropicar, cuidadoso e bailarino, distribuindo cumprimentos educados para todos os lados.
 
 
Publicado na edição 210 - junho/2017

Comunicação agressiva

Karla Giacomet, consultora de imagem, colunista do AJ
 
Pode até ser que você não tenha ouvido falar no termo Comunicação Agressiva, mas certamente já ouviu algum colega ou amigo vangloriar-se de dizer sempre o “o que tem que ser dito”, em nome do que chamam de sinceridade absoluta ou autenticidade.
 
Ao primeiro momento, podemos pensar que comunicação agressiva é somente aquela que se manifesta por um tom de voz alterado, gestos grosseiros e até palavras de baixo calão. Essa é a forma mais explícita, mas ela pode se manifestar de forma bem mais sutil e mascarada, o que pode tornar difícil a identificação de um problema que pode ser desastroso para as relações pessoais.
 
Você já percebeu que algumas pessoas conversam apontando o dedo? Até mesmo em diálogos triviais. 
 
Apontar o dedo a uma pessoa é um exemplo clássico de manifestação agressiva. É uma ação que denota a necessidade de impor a própria opinião. 
 
Outros exemplos? 
 
Falar com ironia, com sarcasmo, levantar as sobrancelhas ao ouvir algo que não está de acordo, fazer brincadeiras com assuntos sérios para “mandar um recado”. Isso tudo é agressivo.
 
Pessoas que impõem suas vontades, que gostam das coisas do seu jeito, que se consideram super sinceras, tendem a ser comunicadores agressivos. 
 
Muitas dessas pessoas são assim porque sentem a necessidade de se impor a qualquer custo, mas também como forma de defesa, para esconder alguma fragilidade. Outras, no entanto, não tem consciência. São acostumadas a se comunicar de forma agressiva porque aprenderam a ser assim e acabam magoando e afastando as pessoas sem perceber. Afinal, ninguém gosta de ser sentir inferiorizado, desrespeitado.
 
Se você se identificou com essas características e está se perguntando se pode estar caindo nessa armadilha, comece a observar como você age nos momentos de tensão, pressão e até mesmo nos momentos de descontração total. Peça o feedback de algumas pessoas próximas de círculos diferentes.  
 
Em nosso convívio profissional e pessoal, precisamos pensar (muito) antes de falar. Precisamos, sim, de “filtros” e evitar sermos desagradáveis com as pessoas, principalmente no ambiente de trabalho, onde além da boa convivência, seu emprego ou sua reputação podem estar em jogo. 
 
Alguns comentários só devemos fazer com pessoas que temos muita intimidade, e ainda assim podem ser desagradáveis! 
 
Pense nisso!
 
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Publicado na edição 209 - maio/2017